"Chegam-lhe os fragmentos de uma conversa telefónica trepidante, «agência de câmbio», «é claro que não», «e quando foi isso?»,«não me diga!», «tem a certeza?», «o senhor onde está?»,«nem me diga isso!». Bate com a porta como que para anunciar que nunca mais o apanham nas imediações, nem sequer tenta fazer uso do elevador, desce os cinco andares apressadamente pelas escadas, tropeça diante da entrada num trolha que leva uma prancha ao ombro. O homem corre para o parque de estacionamento, ofegante e contendo se para não gritar, encaixa-se ao volante, e demarra, e arranca, largando dois negros riscos de pneu no alcatrão."
Mário Claúdio, é o pseudónimo do escritor Rui Manuel Pinto Barbot Costa. Licenciado em Direito. É autor de obras de ficção, poesia, teatro e ensaio. O romance Camilo Broca, editado em 2006 pelas Publicações Dom Quixote, venceu, por unanimidade, a 11ª edição do Prémio Literário Fernando Namora/Estoril Sol.
"Ler na cama É uma difícil operação Me viro e reviro E não encontro posição Mas se, afinal, Consigo um cómodo abandono, Pego no sono." (Millôr Fernandes, in "Pif-Paf")
"Escuto na palavra a festa do silêncio. Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.
Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, o ar prolonga. A brancura é o caminho. Surpresa e não surpresa: a simples respiração. Relações, variações, nada mais. Nada se cria. Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.
Nada é inacessível no silêncio ou no poema. É aqui a abóbada transparente, o vento principia. No centro do dia há uma fonte de água clara. Se digo árvore a árvore em mim respira. Vivo na delícia nua da inocência aberta. "